AMARAL, Leila. Carnaval da Alma - Comunidade, Essência e Sincretismo na Nova Era. Petrópolis: Vozes, 2000. 230 p.
POR: Maria Francisca Santiago do Lago*
Leila Amaral possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (1968), mestrado em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1988) e doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1998). Atualmente é professora convidada no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia da Religião, atuando principalmente nos seguintes temas: religião e modernidade, sincretismo religioso, novas espiritualidades e religião e arte contemporânea.
A antropologia de Leila nos mostra, através do caso Nova Era, a emergência, na contemporaneidade, de uma "cultura religiosa errante" - porosa, performática, festiva, efêmera, sem rígidos marcos doutrinários, carente de idioma teológico, que dessubstancializa e desterritorializa o sagrado. Composta por um universo de práticas de "dinâmica combinatória, preconiza uma "ontologia da relação" uma "ontologia da comunicação". Tal cultura é atravessada em sua constituição mesma por um "sincretismo em movimento", feito de "cruzamento heterodoxo" compondo, na feliz expressão de Marcus empregada pela autora, um "espírito sem lar". Carnaval da Alma nos faz viajar por esse fantástico "espírito sem lar" que se encarna nessa "religiosidade caleidoscópica", que combina, sem contudo fundir, lazer, cultura, crença e mercado na composição de um multiverso de relações que apontam para a possibilidade de gestação de "novos padrões de relacionamento".
Leila abre um vasto leque de questões e de direções de reflexão a chamada “Nova Era” que se manifesta em vários setores da vida moderna, particularmente pela emergência de movimentos, seitas e religiões. A autora, num trabalho academicamente rigoroso e ao mesmo tempo escrito com um estilo convidativo, analisa as razões dessa tendência contestadora da modernidade, examinando os principais movimentos reconhecidos.
Excelente estudo que obedeceu aos padrões de cientificidade e rigor metodológicos isento de preconceitos e atitudes apologéticas prévias, intenta compreender o problema da errância religiosa como uma das novas condições da existência espiritual e religiosa na sociedade moderna. Indicado a universitários das áreas de sociologia, antropologia, teologia, história e ciências da religião, bem como aos interessados cultos da Nova Era.
Carnaval da Alma faz jus às observações de Paul Veyne, para quem "é mais importante ter idéias do que conhecer verdades", pois "ter idéias significa também dispor de uma tópica, tomar consciência do que existe, explicitá-lo, conceituá-lo, arrancá-lo à mesmice", mais ainda "é deixar de ser inocente, e perceber que o que é poderia não ser", uma vez que "o real está envolto numa zona indefinida de compossíveis não-realizados". De saída, já inova e mostra sua audácia ao subverter o tradicional e cansado método comparativo, colocando em diálogo, e não em simples contraste, eventos e encontros da Nova Era, que a autora acompanhou no Brasil e na Inglaterra, no período de junho de 1993 a fevereiro de 1997. Como ela mesma diz na introdução, a opção foi "acompanhar o trânsito, a circulação e o fluxo", em dois contextos culturais distintos, não para desvendar as particularidades culturais e locais de sua atualização, mas para sensibilizar-se com a dimensão transnacional e transcultural das questões formativas da Nova Era. A fertilidade da perspectiva fica igualmente evidenciada na definição mesma do que seja ou venha ser Nova Era. Tal definição, enunciada no final do capítulo I, a Nova Era em perspectiva histórica, e depois retomada na conclusão, é mais sugerida do que efetivamente formalizada, dado que "não existe nada que seja em si mesmo absolutamente Nova Era". Nova Era seria, assim, "mais do que um substantivo que possa definir identidades religiosas bem demarcadas", um "adjetivo para práticas espirituais e religiosas diferenciadas e em combinações variadas, independente das definições ou inserções religiosas de seus participantes", portanto, não é "uma língua franca capaz de unir diferentes tendências contemporâneas". Por isso, Leila diz, com toda razão, ficar "inclinada a enxergar 'o que é Nova Era' mais no domínio do parcial, do ambíguo, do provisório e da indefinição, portanto, mais no domínio da adjetivação parcial do que no da substantivação determinante".
Leila aponta para novas matrizes de formação do vínculo social. Nesta "espiritualidade desencarnada" que é a da Nova Era, o acento forte é dado pela experiência, por um estilo próprio de "lidar com o sagrado". Uma experiência de natureza singular: a da errância, marcada pelo provisório e pela transitividade. Numa feliz expressão, a autora caracteriza os encontros e eventos da Nova Era como "arquitetura da errância". Na experiência errante, o cruzamento heterodoxo - "entre as diferentes tradições religiosas e não-religiosas" - importa "mais do que os conteúdos substantivos das crenças e postulados em trânsito", o que aponta para a possibilidade de falar-se "de novas condições de 'espiritualidade', no mundo contemporâneo", todavia, sem a presença de um fundamento. Por isso apresenta-se como uma espiritualidade desencarnada, dessubstancializadora do sagrado, relativizadora, que descanoniza a relação entre lugar e essência, apesar de acentuar uma nova modalidade de se estar junto. Vale dizer que o caso da Nova Era aponta para "o deslocamento de diferenças híbridas" como "uma das novas condições da experiência espiritual" na contemporaneidade. Experiência religiosa que busca a transformação individual pela via do encontro, da vivência, em uma palavra, pela experimentação.
No capítulo II ocultismo para não-iniciados, é colocada na "liberdade da diferença", que tanto pode ter uma "versão hard magia-poder", aquela que tende a recriar "o mito do indivíduo todo-poderoso", quanto uma "versão soft espiritualidade-harmonia", aquela que "performaticamente" focaliza a possibilidade de "entrar em sintonia com a essência de todas as coisas e de todos os seres". O ponto é que ambas as versões cruzam-se heterodoxamente.
Dos capítulos III a VII Carnaval da Alma enfatiza a experiência mesma do encontro como constitutiva da Nova Era: a experimentação é "a idéia-matriz da cultura Nova Era face aos modelos morais e religiosos contemporâneos". A experiência errante do encontro é experimentada (leia-se vivenciada) "na sua efemeridade, temporalidade e transmigração", mas ao mesmo tempo, e talvez por isso mesmo, produtora de uma "topografia própria do mundo: um mundo constituído de realidades múltiplas e transformáveis umas nas outras". Vale dizer que a cultura da experimentação sugere a existência de uma espécie de porosidade do mundo, que traz em seu bojo uma "absolutização” da passagem - através da vivência da realidade como um mundo de ordens múltiplas e intercambiáveis - concebida como a verdadeira realidade, experimentada e celebrada ritualmente, mas jamais totalmente realizada ou transposta".
A comunidade que é questão na Nova Era é uma "comunidade de errância", pois é aquela que realiza a "comunhão fática" com o divino. Ao possibilitar o "encontro", o estar junto - tanto na forma de "comunidade dentro do mundo" quanto na de "comunidade fora do mundo" - "existiria independente da necessidade de algo a comunicar", pois levaria os buscadores "a experimentar um sentido transformado de comunhão daquele comumente aceito - isto é, de significado comum partilhado - para transparecer a idéia de uma comunicação ampliada'', capaz de "congregar e unir pessoas, tradições culturais, religiosas e lingüísticas diferentes, desde que existam palavras para trocar". Encontro para a nova consciência ou o Carnaval da Alma. A questão ou o desafio que Leila se põe diz respeito a compatibilidade entre a "cultura religiosa errante" e a emergência de um "padrão de civilidade".
No mundo globalizado, a religião extrapola sua esfera mais estrita e mais propriamente social, para figurar "como um recurso simbólico" que coloca "problemas que não são inteiramente religiosos", uma vez que dizem respeito a possibilidade outra de "pensar a ordem social em termos de contexto global". A religião torna-se, assim, uma "patrimônio cultural global"
O paradoxo, constitutivo do espírito de nosso tempo - a tensão entre o estar junto e o estar com - é, no caso da Nova Era, não resolvido, pois não se trata de uma síntese, mas experimentado na busca de uma "ideal de 'fusão' tão radical" (leia-se a identificação do sagrado como o humano e com a vida), "que só se consegue realizar em um nível não essencialista", aquele de "uma unidade sem essência", isto é, "de busca de uma essência que não se substancializa nunca de forma definitiva" e que permite "a experimentação da diversidade".
A moralidade Nova Era é uma "moralidade da semelhança e do eterno 'tornar-se'", na qual o outro não é o antagonista, mas "presença". Carnaval da Alma inspira, instiga o pensamento a ir mais longe, a ver no "multiperspectivismo religioso" contemporâneo e na "cultura religiosa errante"
“Carnaval da Alma”, os errantes da Nova Era, com sua religiosidade caleidoscópica, trazem à tona as ambigüidades das tendências e tradições em confronto nas suas combinações e encontros provisórios, efêmeros e transitórios, abertos, portanto, a vários campos de sentido que podem ser experimentados e contestados, diacrônica e sincronicamente, na trajetória de seus buscadores.
O estilo Nova Era de sincretizar parece estar em perfeita sintonia com o seu tempo uma vez que, sendo caracterizado por uma "diversidade interna", "multimensional", mostra-se capaz "de entreter e responder à pluralidade", por isso é o Carnaval da Alma. Apreciar a influência da literatura espiritual contemporânea nas novas formas de consciência religiosa implica partir de duas premissas que, recolhendo criticamente os efeitos do contraponto anterior, dão conta da relevância específica deste vetor ignorado.
* Maria Francisca S. do Lago é Administradora, especialista em Administração e Planejamento de Projetos Sociais e mestranda em Gestão Empresarial. Ao longo da carreira foi professora de 1º e 2º fase em Colégios Públicos e Particulares, atuou como Coordenadora Financeira, Coordenadora de Centro Comunitário e atualmente atua como Diretora de uma Fundação.
Referências
AMARAL, Leila. Carnaval da alma: comunidade, essência e sincretismo na Nova Era. Petrópolis: Vozes, 2000
Entrevista (Edição nº 8) – com a antropóloga e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora, Leila Amaral. Disponível em: <http://www.antropologia.com.br>. Acesso em 22 out. 2008.
Artigo escrito pela antropóloga Léa Freitas Perez, comentando o livro de Leila Amaral. |