PIEPER, Josef. Que é filosofar? (Was heisst philosophieren?). Trad. Francisco de Ambrosis Pinheiro Machado. São Paulo: Loyola, 2007. 69 p.
POR: Jeferson da Costa Valadares, OP
Há um aspecto essencial na vida humana que, infelizmente, encontra-se velado, sobretudo neste começo do século XXI, em que a rapidez da técnica, a velocidade das informações e dos acontecimentos apresentam-se muitas das vezes de maneira “insípida, incolor e inodora”, isto é, não nos causam admiração, “espanto”, e não nos levam a refletir e agir com relação a determinado assunto ou evento. Chama-se de essencial, uma dimensão simples da vida humana: a admiração. Esta, de fato, serve como ferramenta, instrumento para uma melhor filtração de tais eventos que ocorrem de maneira rápida, ultrapassando o óbvio.
O desafio do homem de hoje, como o daquele de outros tempos é, neste caso, desvelar o que de essencial possui, de resgatar o sentido da admiração. Em uma passagem do Comentário à Metafísica de Aristóteles, Tomás de Aquino diz que a razão pela qual o filósofo compara-se ao poeta é a de que ambos têm a ver com a admiração. O espanto, a admiração, no entanto, colocam o homem em posição privilegiada, provocam perguntas que carecem de respostas. Proporcionam o espaço para o novo e para a descoberta, a superação de determinados aspectos cotidianos, tais como o mundo do trabalho, da rapidez e da superficialidade.
É neste fio de reflexão que o autor Josef Pieper (1904-1997), importante pensador e intelectual alemão, quer nos conduzir. Ademais, indicar ao pensador, ou ao homem do século XXI, que a admiração ainda é uma forma original de encarar a realidade, isto é, a em filosofia e seu caráter operacional, sua dimensão de pôr em marcha a ideia do filosofar. É neste sentido, então, que Pieper, com experiência larga e profunda na filosofia, de maneira mais concentrada na antropologia filosófica, nos lega sua obra Was heisst philosophieren?- Que é filosofar?
Sua obra Que é filosofar? foi traduzida e publicada recentemente no Brasil, tendo um alcance bastante considerável. Pieper já é conhecido de muitos. Seu livro é composto de quatro capítulos, todos concisos e elaborados com precisão e objetividade, o que facilita a leitura tanto de especialistas no assunto quanto de iniciantes à reflexão filosófica, também ao pensamento e no método de Josef Pieper.
O autor dedica o primeiro capítulo à filosofia e o mundo do trabalho; o segundo ao o objetivo da filosofia; o terceiro ao meio ambiente e mundo; e, por fim, no quarto mostra a relação entre tradição, teologia e filosofia. Em todos esses capítulos há um esforço evidente em explicitar e demonstrar o que se entende por filosofar, mas não somente o ato em si, isolado, se assim se pode dizer. Ao contrário, o filosofar tendo em vista o homem que filosofa e o objetivo desse ato, como se opera, o mundo em que se vive, o ambiente cotidiano. Analisa a importância da relação entre filosofia e teologia, isto é, valoriza a tradição que a precede, menciona sem preconceito uma corrente ou outra da filosofia produzida na Idade Média e faz um retorno aos antigos. Aproveita, no entanto, no findar do livro, para falar da necessidade da filosofia para o ser humano.
A tese central do capítulo primeiro dedicado a filosofia e mundo do trabalho, consiste em dizer que a essência do ato filosófico ultrapassa o mundo do trabalho (p.21). Mais uma vez, Pieper, em uma primeira aproximação, diz que o filosofar consiste em uma ação na qual o mundo do trabalho é ultrapassado (p.8). O autor entende por mundo do trabalho o mundo cotidiano, o mundo que visa o prático, o utilitário. Em sentido contrário, não quer fazer da filosofia um fim superior que elimine o mundo do trabalho e do cotidiano. Seu argumento crítico ao mundo do trabalho em detrimento à filosofia é o de que a filosofia adquire – necessariamente! – cada vez mais o caráter do estranho, do mero luxo intelectual, até do autenticamente insustentável e do que não deve ser levado a sério, (...), pois o homem é dominado de maneira exclusiva pelo mundo do trabalho cotidiano (p.9).
Nos capítulos subseqüentes, retornará à pergunta “que é filosofar?”, e o tema da admiração como ponto de partida para o filosofar é o eixo central de sua obra. Filosofar e admirar estão ligados um ao outro. Admiração é o começo da filosofia, em sentido de principium, origem interna e permanente do filosofar. Pieper parece estar bem ligado à tradição de Aristóteles, Platão e Tomás de Aquino. Não necessita de grande esforço para perceber, pois a forma em que seu texto é articulado nos remete a ao pensamento de alguns desses autores, que ele próprio chama de filosofia ainda hodierna.
A leitura deste pequeno e importante livro nos coloca em contato com uma inteligência erudita e ao mesmo tempo acessível. É um livro esclarecedor e cativante, pois trata de problemas relacionados à atividade do filosofar que são muitas das vezes ignorados. Pieper parte de uma indagação eminentemente filosófica, de que só é possível alguém entrar diretamente na filosofia ao formular e tentar responder à questão: que é filosofar?
Filosofar é a forma mais pura do theorein, do speculari, do puro olhar receptivo sobre a realidade, no qual só as coisas dão as medidas e a alma é exclusivamente receptora destas. Por isso, o filosofar não pode ser entendido como algo encerrado e acabado. Filosofar, portanto, na opinião de Pieper comporta uma atitude de admiração, de esperança e de transcendência frente ao mundo do trabalho cotidiano.
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