Pe. Francisco Rubeaux, OMI

“Encontraram o Menino e sua mãe”  (Mateus 2, 11).

O Evangelho segundo Mateus não relata o nascimento de Jesus como o faz Lucas. Somente um versículo afirma: “até o dia que ela deu à luz um filho. E ele (José) o chamou com o nome de Jesus” (Mateus 1, 25).

                           

                Mas Mateus nos narra um episódio que lhe é próprio: a adoração dos Magos. Logo no início estamos informados que o fato se deu no tempo do rei Herodes e em Belém de Judá. O rei Herodes, é o rei dos Judeus, não sendo ele mesmo de raça judia e sim iduméia, portanto ele não é da descendência de Davi. Ele é chamado Herodes o grande. Foi ele quem mandou ampliar e embelezar o Templo de Jerusalém, ele construiu a cidade de Cesaréia e, governando a maneira dos reis gregos, ele foi um grande mecena do Povo judeu.  

                           

                 Os Magos vêm do Oriente. Mateus não diz que são reis, nem que são três e não dá o nome a nenhum deles. Todos estes detalhes são o fruto dos livros apócrifos. No Oriente os Magos eram os estudiosos dos astros, do seu movimento, a fim de informar os reis sobre o transcurso do universo e conseqüentemente dos acontecimentos na História humana.  

                 Observando os astros eles descobriram uma estrela diferente e logo pensaram que havia um acontecimento especial ocorrendo. Mas para Mateus este fato tem uma ressonância diferente, pois o livro dos Números 24, 17 guardou a profecia de Balaão: “Um astro procedente de Jacó se torna chefe, um cetro se levanta, procedente de Israel”.  Sem saber os Magos vem confirmar o que anunciou a Escritura.   

                 Como pode se imaginar, eles procuraram o chefe recém-nascido no palácio real. O que os Magos descobriram pelos astros, os Judeus vão descobrir pelas Escrituras. Os escribas conhecem a profecia de Miquéias: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá” (Miquéias 5, 1). “De ti sairá um que será o guia” (Números 24, 17). “Ele apascentará Israel, o meu povo” (2º livro de Samuel 5, 2). Este colar de citações conduz de Davi ao Messias. Foi em Belém de Judá que Davi foi ungido rei pelo profeta e juiz Samuel. Em Belém de Judá nasce o Messias. Este recém-nascido é descendente de Davi. Mateus já o mencionou repetidas vezes no primeiro capítulo do seu livro.  

                   O temor de Herodes ver aparecer um concorrente ao trono vai se tornar falsidade e mentira: ele quer também adorar a criança que acaba de nascer, mas sabemos que a sua segunda intenção é matar a criança. Por sinal este procedimento já faz parte dos costumes de Herodes. Ele mandou matar sua sogra, uma das suas esposas, dois filhos...Ele reina pelo terror.  

                   Bem informados os Magos vão em frente e retomam o seu caminho, de novo iluminado pela estrela. Assim chegam até o lugar onde estão o Menino e sua mãe. “Prostrando-se, o adoraram. Em seguida abriram os seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra” (Mateus 2, 11). O Evangelista se refere ao Salmo 72 que exalta o rei ideal do futuro, o rei Messias. “Os reis de Tarsis e das ilhas vão trazer-lhe ofertas. Todos os reis se prostraram diante dele” (Salmo 72, 10 e11). Nesta referência ao Salmo se encontra a origem da interpretação que faz dos Magos uns reis. Quanto aos presentes nós encontramos referência no livro do Terceiro Isaías (Isaías 56 a 66). “Uma horda de camelos tem inundará, todos virão de Sabá trazendo ouro e incenso” (Isaías 60, 6). Tudo isso é lembrado pelo Evangelista para manifestar a divindade de Jesus: “Reis prostrar-se-aõ diante de ti com o rosto em terra. Então saberás que eu sou Javé” (Isaías 49, 23). A homenagem dos Magos é revelação da divindade da criança recém-nascida. No início, no centro e no fim do seu livro Mateus vai afirmar esta certeza que em Jesus de Nazaré está presente a divindade: “O chamarão com o nome de Emanuel, o que traduzido significa: Deus no meio de nós” (Mateus 1, 23).  “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mateus 18, 20). “Eis que eu estou com vocês todos os dias até a consumação dos séculos” (Mateus 28, 20). Estas três proclamações de fé são como os esteios de sustentação de toda a obra do Evangelista.

               

                       O livro de Mateus se abre com esta narração de visão universalista: gente vem do Oriente adorar o Messias. O livro se terminará com este pedido de Jesus: “Vão, de todas as nações fazem discípulos meus” (Mateus 28, 19). Não se pode  fechar no judaísmo, mesmo renovado, é preciso abrir para todas as nações, o Evangelho é universal. Assim é caracterizada a missão dos cristãos e das cristãs: ir pelo mundo inteiro e fazer de todas as nações discípulos e discípulas de Jesus. Neste empreendimento, Jesus estará, todos os dias, com os evangelizadores.   

                       Os Santos Padres da Igreja deram o sentido dos três presentes: o ouro é a realeza, o incenso é  a divindade, a mirra é a humanidade, este perfume servirá  para embalsamar o corpo morto do Senhor Jesus.  

                          Então os magos retornam para a sua terra por outro caminho. Não devem dar oportunidade ao rei Herodes perpetrar o seu projeto sanguinário. Mas também Mateus nos dá uma lição muito profunda: quem encontrou Jesus não pode mais trilhar o mesmo caminho, agora segue o caminho de Jesus. 

                           Todo este texto de Mateus 2, 1 a 12 é o que se chama no estudo da Bíblia um “midrash”. É uma interpretação atualizada de um texto mais antigo da Bíblia. Aqui claramente aparecem as lembranças da vida de Moisés. Ainda mais quando conhecemos uma narração dos escribas sobre o nascimento de Moisés. O Faraó teve um sonho: uma balança com dois pratos. Num prato um menino recém-nascido, noutro o Faraó e todo o povo egípcio. Mas o prato com o menino era mais pesado. Ao acordar Faraó chamou os Magos da corte, ele contou o seu sonho e pediu explicação. Os Magos disseram que acabava de nascer um filho de hebreu, escravo, mas ele iria libertar o seu povo da escravidão. Então faraó usou de todos os meios para matar este possível libertador e mandou matar todas as crianças homens. 

                               Agora se torna clara a intenção de Mateus. Ele quer mostrar que Jesus é o novo Moisés esperado: “Vou suscitar para eles um profeta como tu, do meio dos seus irmãos. Colocarei as minhas palavras em sua boca e ele lhes comunicará tudo o que eu lhes ordenar” Como Moisés foi desde o nascimento perseguido por Faraó, assim Jesus. Seu nascimento será a ocasião do massacre dos santos inocentes como no Egito. Quem interpreta o sonho do Faraó são os Magos. Assim a História vai se repetindo.  

                               Mateus que se dirige às comunidades cristãs formadas em maior parte de pessoas originárias do judaísmo, quer mostrar também pelas Escrituras que Jesus é bem o Messias esperado e anunciado pelos Profetas. O Evangelista fez todo um trabalho de releitura dos textos sagrados, aplicando-os a pessoa de Jesus.     

                                 Até hoje podemos nós também atualizar este evento do nascimento de Jesus, pois ainda têm tanto conflitos, tantos massacres de inocentes. Os Magos seguiram com honestidade a estrela que os guiou até Jesus. Os escribas, doutores da Lei, Herodes, que tinham as Escrituras não foram capazes de se movimentar, de reconhecer a realização das Promessas de Deus no evento do nascimento do Menino. E nós que temos a Bíblia, a lemos tanto e tanto, mas ficamos na nossa. As Escrituras são um convite permanente á conversão, possamos neste tempo de Natal abrir o nosso coração acolher a Palavra que regenera, restaura, rejuvenesce.     

 

 

 

 

 

 

 

 

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