MARIA no Evangelho segundo MARCOS
 |
Pe. Francisco Rubeaux, OMI
Teólogo |
Ao abrir o livro do Evangelho segundo São Marcos, podemos logo constatar que a narração começa com a pregação de João, o Batista. Não há um chamado “Evangelho da Infância” como em Mateus ou Lucas.
O livro de Marcos é o primeiro a aparecer, pelo menos se desconsiderarmos o que nos afirma Papias no início do II século, que apareceu primeiro “um Evangelho de Mateus em aramaico”. Mas não temos nenhum vestígio deste livro. Assim Marcos permanece o mais antigo dos livros do Evangelho. Ele, provavelmente, foi publicado pelos anos de 70, um pouco antes ou um pouco depois da ruína de Jerusalém e da destruição do Templo.
A respeito de Maria, a mãe de Jesus, ele nos traz algumas informações, mas não tece comentários sobre a maternidade de Maria como mãe do Filho de Deus. Ele traz notícias da sua existência humana, da sua relação familiar com Jesus e sua família. Estamos ainda na época onde o centro da Boa Nova é Jesus e o Reino de Deus. Os textos em que Marcos cita a mãe de Jesus são bastante duros. Vamos tentar analisá-los.
- A família de Jesus: Marcos 3, 20-35.
Neste bloco temos a apresentação de duas famílias de Jesus. A sua família carnal e a sua família por opção de vida.
A família carnal de Jesus não acredita nele e acha que “ele está fora de si”. Por isso querem reconduzi-lo para a casa em Nazaré. É exatamente o que pensam os escribas vindos de Jerusalém (é o judaísmo oficial): “Belzebu está nele”. Mas Marcos não dá nomes aos “seus”. Nem sequer cita Maria, mãe de Jesus. Mas podemos pensar que ela se encontra no meio deles, pois logo depois ela vai estar na porta da casa onde Jesus se encontra. A família de Jesus é descrente quanto à sua missão.
Mas Jesus apresenta outra família do que a carnal. Esta família é composta por aqueles, aquelas que estão sentados ao seu redor dentro da casa. São todas e todos que fazem a vontade do Pai. A mãe e os irmãos estão do lado de fora, não deram ainda a sua adesão a Jesus como aqueles e aquelas que estão do lado de dentro. Para pertencer à família de Jesus não bastam os laços carnais, tem ainda que optar, aderir à mensagem do Evangelho, fazer a vontade do Pai. Para Marcos é importante romper os laços familiares para criar novos laços mais fortes e mais universais. A família de Jesus ultrapassa as fronteiras das nossas famílias humanas. Na época de Marcos, as comunidades que viviam segundo o sistema social romano, organizavam-se a partir da família. O laço que unia as pessoas de uma mesma família era chamado “piedade”, a piedade filial. Ao redor do pai de família (paterfamilias) se constituía a família. Ele tinha direito de vida e de morte. Ele era também o sacerdote das divindades que cada família cultuava. Aderir pela fé ao Evangelho de Jesus Cristo é romper com toda esta estrutura e criar um novo ambiente de vida: a família de Jesus, onde todos são irmãos e tem um só Pai, aquele que está nos céus. Por isso era importante lembrar aos cristãos como Jesus também foi desconsiderado pelos seus e quebrou os laços da família humana para iniciar uma nova família na casa (isto é na comunidade).
A mesma incompreensão quanto à missão de Jesus por parte dos seus e por parte dos escribas, vem também dos conterrâneos de Jesus (Marcos 6, 1-6). Jesus não é bem recebido na sua terra. Neste texto Jesus é apresentado como o “filho de Maria”, o carpinteiro. Não é mencionado o pai dele. Será que já tinha falecido? Mas são nomeados os seus irmãos e as suas irmãs.
- Os irmãos e as irmãs de Jesus: Marcos 6, 3.
Marcos não pensa numa polêmica possível quanto à virgindade de Maria após o parto do seu filho primogênito. Ele nos descreve simplesmente a família de Jesus de acordo com as expressões e palavras da época e da cultura aramaica. O uso da palavra “irmão” e “irmã” não afirma nada quanto ao parentesco destas pessoas com Jesus. A palavra pode ser usada no sentido de “parente” e até conterrâneo. Ela é, portanto, de uso bastante amplo. Mas não podemos deduzir que essas pessoas mencionadas não são os irmãos e as irmãs de Jesus.
São quatro nomes de irmãos citados no referido versículo. Ora os dois primeiros (Tiago e Joset ou José) são também mencionados com outra Maria, que olhava de longe o crucificado (Marcos 15, 40-41). Estes dois irmãos podem não ser irmãos de Jesus porque não filhos de Maria. Restam os dois últimos (Judas e Simão). Marcos teve a preocupação de nos apresentar a família de Jesus, dentro das relações familiares daquela época e da maneira como se viviam. Não podemos, portanto, concluir mais do que os textos querem nos dizer. Marcos insistiu sobre a nova família que Jesus reuni ao seu redor e sobre a incredulidade dos seus, dos escribas e dos conterrâneos de Nazaré. Tudo indica que Maria, mãe de Jesus se encontra entre as pessoas que não acreditam, ela está ainda do lado de fora. Ela é uma pessoa bem humana, com as suas dúvidas, seus questionamentos. Fomos tão acostumados a uma devoção marial piedosa, e às vezes, melosa, que nós temos dificuldade a crer que Maria não aceitou tudo, não sabia tudo, não compreendeu tudo desde o início da encarnação de Jesus. . Marcos nos situa a mãe de Jesus no seu contexto do vilarejo de Nazaré, com as suas preocupações no meio dos familiares. Maria é uma mulher do povo simples, e, provavelmente, que a presença dominadora dos Romanos, faz temer também por qualquer ação reivindicativa. Não esqueçamos que é no livro de Marcos que encontramos o que costumamos chamar “o segredo messiânico. Juntar multidões, como escreve Marcos, podia ser visto como ato de rebelião.
Outras preocupações já mais doutrinais virão com os livros seguintes do Evangelho: Mateus, Lucas e João. No próximo artigo começaremos a abordar o “Evangelho da Infância” segundo Mateus.
|