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As aventuras da graça
Domingos Zamagna (*)
Quando eu era jovem – esclareço que
já faz muito tempo – os militantes da Ação
Católica nunca deixavam de ler a obra clássica de
Raïssa Maritain As Grandes Amizades.
O subtítulo do segundo tomo é As aventuras da Graça.
Trata-se de trabalho magnífico de uma das mais belas figuras
do catolicismo francês, escrito no exílio americano
durante a segunda guerra mundial. Há tradução
portuguesa que poderá ser lida pelos jovens, certamente com
muito proveito.
As aventuras da Graça, esta foi a idéia que me ocorreu
quando recebi o convite para o Jubileu dos Amigos, a ser celebrado
às 15 hs do próximo dia 28, na Igreja de São
Domingos (R. Caiubi 126, Perdizes) da capital paulista.
Quatro irmãos nossos celebrarão jubileus sacerdotais:
Pe. José Comblin (60 anos de sacerdócio); os demais,
50 anos: Pe. Jack Vessels SJ, Frei Carlos Mesters O.Carm. e Frei
Gilberto Gorgulho OP.
O local escolhido é revestido de grande significação,
pois aquele templo simboliza toda uma trajetória de renovação
da Igreja e resistência dos cristãos à ditadura
militar que sangrou os brasileiros durante 21 anos. Mais significativa
ainda é a diversidade dos celebrantes.
Com efeito, tanto a geografia quanto a lingüística conspiravam
para jamais aproximá-los: o primeiro (padre secular) é
belga, de expressão francesa; o segundo (jesuíta)
é americano, obviamente de língua inglesa; o terceiro
(carmelita) é holandês, falando este idioma até
os vinte anos de idade; e o quarto (dominicano) é brasileiro,
falando português com sotaque mineiro. E no entanto eles se
encontraram na arquidiocese de São Paulo, sob a guia de um
franciscano, o arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns. Que miscelânia!
Mas que expressiva imagem da Igreja Católica! Uniu-os a Palavra
de Deus, a missão evangélica, o amor pelo povo, sobretudo
os mais pobres, a esperança de construir um mundo mais justo
e fraterno. Para serem úteis ao povo cristão, adotaram
disciplina intelectual rigorosa, vida austera, liberdade de espírito,
trabalho em equipe, postura crítica em face de qualquer manifestação
de poder, sempre pensando em servir. Tudo animado de paixão
pela Igreja de Cristo e pela incessante vida de oração.
Repartiram tudo o que aprenderam, têm um sem-número
de discípulos, sem contudo fomentar sentimentos de dependência;
elaboraram novas metodologias, enfrentaram desafios, resistiram
às pressões. Cada qual sorveu sua quota de sacrifícios
e perseguições. Não é esta uma das características
dos que fazem das Bem-aventuranças um programa de vida? Mas,
graças a Deus, nenhum deles pensa em se aposentar, pois ainda
têm muito o que fazer pelo povo e pela Igreja.
A vida e a missão os levou cada qual para um canto do mundo.
Guardaram a fidelidade à causa comum e a solidariedade entre
si. Exemplificam a famosa frase de Saint-Éxupéry:
amigos não são os que ficam olhando uns para os outros,
são os que olham, juntos, para o mesmo fim. Exemplificam
mais perfeitamente ainda as palavras do Divino Mestre: “Pai
justo... Eu lhes dei a conhecer o teu nome e lhes darei a conhecê-lo,
a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles”
(Jo 17, 26).
(*) Jornalista e professor de Filsosofia.

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