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Walter Kasper nasceu em 1933 em Heidenheim na Alemanha. Após seus estudos de Filosofia e Teologia em Munster e Tubingen, foi ordenado padre em 1957 na diocese de Rottenburg-Stuttgart. Consagrou seu ministério principalmente à pesquisa e ao ensino da Teologia, começando sua carreira como assistente de Hans Kung, até a defesa de sua tese sobre Filosofia e Teologia na obra de Schelling em 1964, tornando-se então professor de Teologia dogmática em Munster de 1964 até 1970, e depois em Tubingen de 1970 até 1989, quando foi nomeado bispo de sua diocese de origem. Em 1994 tornou-se co-presidente da Comissão Internacional para o Diálogo Católico-Luterano. A partir de 1999 passou a integrar o Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, primeiramente como Secretário e em seguida como Presidente, cargo que exerce até hoje. Foi criado cardeal em 2001 por João Paulo II. Atualmente, é também membro de diversas Congregações e diversos Conselhos da Cúria romana.
Sua importante obra teológica surge e se consolida no clima de renovação eclesial instaurado pelo Concílio Vaticano II. Ela se expressa em sua ativa participação em órgãos e instâncias de debate teológico – Comissão Teológica Internacional do Vaticano, Comissão Fé e Constituição do Conselho Ecumênico das Igrejas, revistas Concilium e Communio, etc -, assim como em seus artigos e livros. De modo geral, sua reflexão, reconhecida como de lúcida e exigente abertura aos problemas com os quais hoje se defronta a Tradição cristã, situa-se na delicada fronteira da liberdade da Teologia e dos teólogos em sua relação com o Magistério eclesial. Desde 1968, as Éditions du Cerf, dos dominicanos franceses, traduzem e divulgam parte importante sua obra, tornando-a assim mais acessível internacionalmente : por exemplo, Renouveau de la méthode théologique, 1968 ; Jésus le Christ, 1976 ; Théologiens du Christ aujourd'hui (com Arno Schilson), Desclée e Cerf, 1978; La Théologie et l'Église, 1990 ; Sacrement de l'unité, eucharistie et Église, 2005 ; Serviteur de la joie, La vie de prêtre – Service sacerdotal, Paris, Cerf, 2007. Alguns desses livros fazem parte da importante coleção Cogitatio Fidei, dirigida por Claude Geffré que deu neste ano de 2009 a Aula Inaugural na Escola Dominicana de Teologia. Em português temos de Walter Kasper Cristologia. Abordagens contemporâneas, e Sacramento de unidade : Eucaristia e Igreja, ambos publicados pelas Edições Loyola, respectivamente em 1990 e 2006.
Destaque especial merece a grande contribuição que o cardeal Walter Kasper há anos tem dado ao movimento ecumênico na busca da unidade dos cristãos, como bem se pode ver nos textos apresentados a seguir
Prof. Magno Vilela
Eis a Entrevista:
Na Itália muitos censuram hoje a Igreja por dizer demasiados ‘não’ e por ser demasiado dura.
“É preciso ter presente que os ‘não’ da Igreja estão em função de um sim maior. O que a Igreja oferece e traz é uma boa notícia, o amor infinito e incondicionado de Deus por cada ser humano, de um Deus que salva e dá verdadeira felicidade e eternidade. Devemos empenhar-nos a comunicar que Deus não tira nada ao homem, mas dá tudo. De outra parte, cada sim, se é sério e sincero, implica também um não a posições e escolhas contrárias. Nas promessas batismais que renovamos em cada vigília pascal, antes de dizer sim a Deus e a Jesus Cristo, dizemos um não ao mal e ao pecado. Assim, a Igreja deve falar com clareza, sem ambigüidade, e é por esta razão que sempre foi hostilizada no decurso dos séculos: Cristo é sinal de contradição e sempre o será! Naturalmente também devemos ser sempre prudentes e atentos para não dar uma impressão errônea, aquela de sermos sem misericórdia. Jesus odeia o pecado, mas ama o pecador: esta distinção permanece para todos como fundamental. O perdão é o grande dom do Evangelho, é o que caracteriza a religião cristã e a distingue das outras. Nós temos sempre necessidade de ser perdoados, por Deus e pelos homens. Perdoar significa: é possível recomeçar; esta é a alegre nova que a Igreja anuncia. Paulo não hesitou em repreender o apóstolo Pedro, mas decide não comer as carnes sacrificadas aos ídolos para não dar escândalo aos irmãos mais débeis na fé.
Quem são hoje os irmãos débeis na fé que é preciso não escandalizar?
“Há muitos e diversos fiéis que podem ser definidos como pequenos. Penso, por exemplo, nos fiéis simples, que oram e vivem da melhor maneira sua vida cristã cotidiana, mas que não tem conhecimentos aprofundados de teologia e não podem nem devem saber e compreender todas as finas distinções, as altas especulações, as controvérsias e talvez as puras hipóteses que os teólogos levantam. Penso que não seja nem responsável nem respeitoso envolverem-se em tais discussões que os confundem e os afastam de sua fé. Penso até que eles sejam a verdadeira base da Igreja. Meu pensamento vai também aos jovens que estão crescendo num mundo desorientado. Muitíssimos jovens estão extraviados, confusos, se sentem sós, abandonados, incompreendidos e transtornados por miríades de propostas. Crescer é para eles muito difícil e o é mais de quanto o tenha sido para mim: quando eu era jovem, a sociedade não estava marcada pelo pluralismo como o é hoje, tudo era mais claro, a orientação a dar à vida era facilmente reconhecível. Hoje não é assim. Estou convencido que com os jovens seja necessária sobretudo muita paciência. É necessário ajudá-los a crescer na verdade usando caridade e, por isso, estar-lhes próximos sem ser impacientes quando mostram hesitações ou cometem erros. Considero principalmente importante fazê-los sentir-se escutados e amados, porque é disto que tem mais necessidade. Neste sentido, também tem necessidade de serem compreendidos e guiados, não só com reprimendas, mas também com um testemunho verdadeiro. Os jovens tem sede de infinito e de absoluto, estão em busca de algo crível, são desejosos de descobrir qual é o sentido da vida e o que significa ser plenamente humanos; a isto somos chamados nós adultos: a fazê-los descobrir, com amor e paciência, Jesus, e a ser confiáveis mostrando a beleza da amizade com Ele. Ajudar os jovens a enamorar-se de Cristo: esta é nossa tarefa”.
Em sua ótica, na base da relação não raramente conflitante entre crentes e não crentes, não existe também o fato de que para nós a verdade é uma pessoa, Jesus Cristo morto e ressuscitado, com o qual temos uma relação afetiva, enquanto os não crentes identificam o conceito de verdade com um corpus de doutrinas e princípios?
“Penso que sim. Mas, infelizmente também muitíssimos que são chamados fiéis não conhecem mais Jesus Cristo. E isto é muito grave. Hoje é necessária uma nova evangelização; esta é a tarefa central da Igreja na época atual. Este é o programa do Papa Bento XVI. Devemos anunciar que o fundamento do cristianismo é a pessoa de Jesus Cristo morto e ressuscitado, que deseja a amizade e a comunhão com cada ser humano. Todas as verdades do cristianismo continuam importantes e não são esquecidas ou negadas, mas são posteriores a esta afetuosa relação de amizade e se tornam compreensíveis, aceitáveis e possíveis de serem vividas se existe esta relação. No que diz respeito a nós pastores, em nossas pregações, em nossas catequeses devemos ajudar as pessoas a encontrar Jesus e a estabelecer a amizade com Ele: este é o primeiro e indispensável degrau que muitíssimos fiéis esqueceram. As verdades cristãs só podem ser compreendidas quando se ama Deus e Jesus Cristo: quem os ama, de outra parte também quer compreendê-los mais profundamente, isto é, ingressar em todas as riquezas da fé; e quer, quanto possível, penetrar com a razão. A fé cristã não é um ato cego ou somente emotivo. Segundo o axioma de Santo Agostinho, fides quaerens intellectum, a fé procura a compreensão. Neste sentido, o Concílio Vaticano II afirma que devemos compreender tudo no contexto da hierarquia das verdades.
Ora, na hierarquia das verdades Jesus Cristo está em primeiro lugar. Nós cristãos não proclamamos teorias, nós anunciamos uma pessoa, Jesus de Nazaré, filho de Deus, morto e ressuscitado, que ama e dá salvação e que é ao mesmo tempo luz do mundo. Em nossa atividade pastoral devemos sempre fazer compreender e explicar as múltiplas verdades do cristianismo a partir dele que é seu fundamento. A vida cristã poderia ser descrita como um caminho no qual somos introduzidos sempre mais profundamente na verdade, isto é, em Jesus Cristo, e quanto mais a amizade com Ele for profunda, tanto mais as verdades do cristianismo, também aquelas aparentemente incompreensíveis ou demasiado difíceis de serem vividas, se tornam claras. Penso que muitos tenham feito esta experiência: numa fase de sua vida uma determinada verdade cristã aparecia aos seus olhos como inaceitável, mas depois, continuando a caminhar com Jesus, ela se fez plena de sentido e de valor. É preciso recomeçar, com impulso, a levar Jesus, esta pessoa que cada ser humano espera e de quem tem nostalgia.”
O senhor pensa que para esta nova evangelização sejam necessários novos instrumentos ou um comportamento e um espírito diversos, com os quais propor Cristo e a amizade com Ele?
“Em primeira instância não são necessárias novas estruturas ou novos instrumentos. O que é necessário acima de tudo é uma nova conduta, um novo espírito missionário, com os quais repropor que fundamento da existência cristã encerra Jesus e a relação com Ele. Disso derivam, a seguir, por exemplo, novas tipologias de catequese, não só para as crianças e os jovens, mas também para os adultos. Esta tarefa não diz respeito somente ao clero, mas também aos fiéis laicos, porque se trata de ser verdadeiras testemunhas: trata-se de mostrar aos outros que somos amigos de Jesus e isso nós o podemos fazer por toda parte: na família, na escola, no lugar de trabalho. Devemos ser mais corajosos, não ter medo de contar aos outros o sentido, a luz, a alegria que Jesus trouxe para nossa vida. Disto se precisa hoje: de comunicar com a própria vida quão enriquecedor seja o elo com Ele. É preciso testemunhar a beleza da fé com coragem e convicção”.
Em que termos o diálogo ecumênico pode ajudar nesta nova obra de evangelização?
“O diálogo ecumênico e a missão são como dois gêmeos. Os dois querem dar testemunho de sua fé, ultrapassando os limites atuais da Igreja, seja aos não crentes ou aos outros cristãos. O diálogo ecumênico, como repetia João Paulo II, não é somente troca de idéias, mas troca de dons entre comunidades que têm Cristo em comum.
Neste sentido também as outras Igrejas cristãs têm dons a oferecer-nos, bem como nós os temos para eles. Após o Concílio Vaticano II, por exemplo, nós católicos aprendemos muito dos protestantes em matéria de exegese bíblica, como também dos ortodoxos, nós, pertencentes ao mundo ocidental – com freqüência demasiado racionalista, – podemos aprender muito sobre o mistério da fé. Esta troca de dons permite aos cristãos crescerem juntos, afim de que cada um possa aproximar-se e unir-se sempre mais a Cristo, como afirma Bento XVI. Através de tal unidade, que aos poucos vai crescendo, a mensagem cristã missionária se torna mais crível para o mundo. Jesus ensinou: ‘para que todos sejam uma só coisa, a fim de que o mundo creia’”.
No decurso destes anos, exercendo o cargo de presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da unidade dos cristãos, jamais se perguntou: “Mas eu, neste caso específico, realmente concretizei a verdade na caridade?
“Sim, mais de uma vez. Convém ser e permanecer sempre autocríticos. Realizar a verdade na caridade nas situações particulares concretas nem sempre é fácil: é possível errar nos dois sentidos: pode-se exagerar em proclamar a verdade, endurecendo-se em detrimento da caridade, de modo que a verdade se torna demasiado dura para ser aceita, e se pode entender mal a caridade e ser demasiado tolerante e indulgente com os outros, em detrimento da verdade. O risco de cometer estes dois erros corremo-lo todos. Em alguns casos, vivenciando a experiência do diálogo ecumênico, aconteceu que eu me perguntasse: tenho sido demasiado duro? Fiz realmente o esforço de explicar com clareza e com paciência minha posição? Em outras ocasiões me questionei: tenho sido excessivamente tolerante, colocando a verdade na sombra? Eu me interrogo e penso que seja correto fazê-lo porque não é fácil encontrar o correto e necessário equilíbrio. Também por isso não desenvolvo sozinho minha atividade: tenho alguns colaboradores que me ajudam neste trabalho difícil e delicado. Eles me ajudam e talvez me corrijam, porque fazemos parte da comunidade cristã e na comunidade cristã existe complementaridade: os dons de uns estão em benefício e ao serviço dos outros, como afirma também Paulo, e assim caminhamos ajudando-nos reciprocamente. Nenhum de nós já é perfeito, somos e continuamos pecadores e devemos sempre crescer na capacidade de conjugar verdade e caridade. E, para poder crescer, é preciso alimentar a relação com Jesus e, por conseguinte, rezar, por-se à escuta da Palavra de Deus, aproximar-se dos sacramentos, a começar por aquele da reconciliação. É isto que procuro fazer”.
No ano passado, por ocasião do centenário da Semana de oração pela unidade dos cristãos, o senhor disse: “Princípio e motor do ecumenismo é a meditação, a contemplação. Seu objetivo é a comunhão, mas uma comunhão que não é o simples resultado de esforços humanos, de uma obra ou uma instituição criada simplesmente por nós. Sem comunhão espiritual, todas as estruturas de comunhão nada mais seriam senão um aparato sem alma. A comunhão é, acima de tudo, um dom. Decidir quando, onde e como será realizada a união não está em nossas mãos, mas nas mãos de Deus. E é nele que devemos ter confiança”. Pode ilustrar o valor e a importância do ecumenismo espiritual? A nosso juízo, no povo católico há consciência de quanto seja escandalosa e dolorosa a divisão dos cristãos?
“Penso que muitos católicos não experimentem dor pela divisão dos cristãos, nem tenham compreendido quanto ela seja escandalosa porque contrária à vontade de Deus. Já que a divisão perdura há séculos, muitos a consideram um dado de fato, algo imutável com que se pode pacificamente conviver. Ao invés disso, é preciso dar-se conta que a divisão entre as igrejas cristãs é profundamente contrária à vontade divina, é um pecado. E deste pecado não são responsáveis somente os outros cristãos, mas frequentemente também nós católicos, porque nossa vida cristã e eclesial não demonstra ser suficientemente convidativa e convincente para os outros. Para chegar à reconciliação, à unidade que – insisto – é dom de Deus, são necessárias oração, penitência e conversão do coração, da parte de todos, porque a Igreja não é somente uma instituição humana, cuja reconciliação possa ser comparada à fusão de duas grandes empresas no contexto da globalização: a Igreja é o templo do Espírito e o corpo de Cristo e segue, por conseguinte, leis espirituais.
Não se pode simplesmente fazer ou organizar sua unidade. Infelizmente, no entanto, é hoje convicção difusa que o diálogo ecumênico não diga respeito somente a cada fiel, mas seja tarefa das hierarquias e implique disputas acadêmicas que devem ser enfrentadas e resolvidas pelas cúpulas das igrejas. Se, de um lado, é verdade que há questões teológicas a discutir e é necessário confiá-las a quem tem competência para isso, de outro lado, no entanto, é também verdade que o coração do ecumenismo é a prece pela unidade, e essa envolve cada fiel. Ecumenismo significa rezar com Jesus e em Jesus, tornar pessoal a prece que ele dirige ao Pai na vigília da morte: ‘Para que todos sejam uma só coisa. Com tu, Pai, estás em mim e eu em ti’. O verdadeiro coração do ecumenismo é espiritual: o Concílio Vaticano II, no seu decreto sobre o ecumenismo, declarou: ‘Esta conversão do coração e esta santidade de vida, junto com as preces privadas e públicas pela unidade dos cristãos devem ser consideradas como a alma de todo o movimento ecumênico e se podem justamente chamar de ecumenismo espiritual’. Eu mesmo, antes de me dirigir a um encontro ecumênico, sobretudo se particularmente delicado, peço aos outros, por exemplo a uma comunidade monástica, que rezem: e esta prece eu a sinto e percebo sua eficácia”.
*Fontes: Instituto Humanitas Unisinos |