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São Paulo, -


» notícias » entrevistas em 2006  

  A atualidade de Santo Tomás de Aquino  

  Entrevista com Professor Jean Lauand  

  Jean Lauand é professor na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), e autor do recém-lançado "Sete Conferências sobre Tomás de Aquino" (livro editado pela Escola Superior de Direito Constitucional). Especialista no pensamento de Santo Tomás, nesta conversa o Professor Lauand nos fala de sua paixão pelo Doutro Angélico e sobre a atualidade deste grande pensador.

Professor Jean, como surge o seu interesse por Santo Tomás?

Foi uma conjunção de diversos fatores... eu ainda muito jovem, com dezoito ou dezenove anos, tomei contato com a obra do grande pensador alemão, que a meu ver é o melhor intérprete de Santo Tomás no século XX, o filósofo Josef Pieper, da Universidade de Münster; sua obra começava a ser traduzida no Brasil e eu, ainda muito jovem, li seu livro “O que é filosofar? O que é acadêmico”, publicado pela Editora Herder. Imediatamente senti uma grande afinidade com as teses de Santo Tomás, fielmente apresentadas por Pieper. Ao mesmo tempo iniciava a licenciatura em Matemática, na Universidade de São Paulo (USP); na licenciatura, tive contato com a Faculdade de Educação, porque a licenciatura exige que se cursem disciplinas da Educação, onde acabei conhecendo o grande medievalista Prof. Ruy Afonso da Costa Nunes. Surgiu entre nós uma grande amizade, e ele foi me orientando neste meu interesse de jovem por Santo Tomás. Poucos anos depois, quando eu estava fazendo pós-graduação em Matemática, também na USP, surgiu o convite de Ruy Nunes a que eu prestasse exame para o Mestrado em Filosofia. Então, eu abandonei meus projetos em Álgebra Linear e passei a estudar tematicamente Santo Tomás como objeto de meus estudos de pós-graduação. Meu Doutorado foi sobre Pieper, depois a livre-docência sobre Santo Tomás e a prova de erudição no concurso para titular também foi sobre Santo Tomás – a aula Deus Ludens, que está no meu livro “Sete Conferências sobre Santo Tomás de Aquino”.

O que mais o atrai na obra de Santo Tomás de Aquino?

O que mais me atrai na obra de Santo Tomás é a característica de abertura para a totalidade do real. Santo Tomás tem uma coragem, uma alegria em conhecer o mundo como Criação de Deus... é de Chesterton o epíteto: “Tomás do Deus Criador”, ou seja, a recusa a qualquer proposta de cristianismo amedrontada, temerosa, recortada... Tomás aceita o mundo em sua plenitude, com toda a realidade (visibilium omnium et invisibilia) e tem este enorme bom senso em reconhecer as limitações da inteligência humana, com a noção de mistério. Esta é uma idéia fascinante em Santo Tomás: as coisas são cognoscíveis porque são criadas pelo Verbo, e são mistério também porque criadas pelo Verbo; nós nunca poderemos sequer esgotar a essência de uma mosca, como escreveu Tomás no “Comentário ao Credo”. Então, me atrai esta atitude de “aventura intelectual”, de conhecer a totalidade do real, com uma infinita abertura, que contradiz, inclusive, os epígonos de Santo Tomás. Pieper é da tese, com a qual concordo plenamente, de que é impossível um tomismo no sentido de um “ismo” que enclausurasse Santo Tomás numa “camisa-de-força” de um sistema acabado - como se pode ter um sistema acabado, se não podemos conhecer sequer a essência de uma mosca? O que mais importa em Santo Tomás é exatamente este espírito de confiança na realidade e de abertura infinita para a busca do ser.

No mundo e na universidade atuais, qual seria a contribuição do pensamento de Santo Tomás?

Santo Tomás tem uma imensa atualidade até pelo fato de ainda ser desconhecido. Certa vez, brincando, eu disse que Santo Tomás não sai de moda porque nunca entrou na moda. Mas, a atualidade não é só aquilo que está acontecendo agora; é também aquilo que deveria estar acontecendo, que poderia nos ajudar, e não está acontecendo. Não há campo do pensamento no qual Santo Tomás não tenha uma contribuição original, e plenamente atual. A grande mensagem de Santo Tomás, sua grande contribuição, parece ser por um lado, no campo do conhecimento, esta afirmação do ser que não tem nada a ver com racionalismos, com pretensões de esgotar a realidade, como dizia na resposta anterior, mas de afirmar a “realidade do real”. Isto é importantíssimo num mundo como o de hoje, onde esta noção praticamente desapareceu. Também, por extensão, no campo da Ética: Santo Tomás afirma uma Ética do ser, da prudentia (no sentido clássico de guiar-se pelo real) em contraposição a uma Ética centrada em regrinhas. Uma Ética da autêntica auto-realização do ser humano, de acordo com o plano que Deus tem na criação pessoal de cada um. Esta noção de pessoa, também; a pessoa “este homem, com esta carne e estes ossos” também ocupa um papel essencial na obra dele. Tudo isto é bastante ignorado por certos setores, certos epígonos, que se pretendem tomistas e querem aprisionar Santo Tomás em um sistema fechado de pensamento, o que é o mais oposto ao espírito do próprio Tomás.

Quais as perspectivas para a filosofia tomista?

Dentro deste enorme interesse potencial que Santo Tomás tem pelo mundo atual, a grande perspectiva é a da redescoberta da própria obra de Santo Tomás, através de traduções e de ensino nas universidades, de Santo Tomás com esta abertura à totalidade do real, abrindo-se para a verdade, venha ela de onde vier (ele foi o primeiro a conjugar, junto com Alberto Magno, o “impossível” da harmonização da fé cristã com Aristóteles, em sua época) e irmos redescobrindo o imenso otimismo que decorre da Criação. Penso que Santo Tomás é muito atual, porque ele ao mesmo tempo que afirma ser a criatura encantadora porque procede de Deus, afirma também que a criatura produz um forte efeito depressivo porque procede do nada. É isto o que Pieper chama de “transtorno bipolar” ou “psicose maníaco-depressiva” (risos)... a normalidade do homem comum, que se põe em contato com o ser, que se põe a filosofar, sofre um efeito muito pertubador: por um lado, uma euforia extrema, porque encontra a beleza e a verdade de Deus no mundo, e por outro, de uma profunda depressão – é neste sentido que Santo Tomás entende o “bem aventurados os que choram”. O dom da Ciência, para Santo Tomás, que vem do Espírito Santo, é exatamente perceber o nada deste mundo que, ao mesmo tempo, participa do ser de Deus. Isto é bastante atual: esta consciência existencial do nosso nada, ao mesmo tempo com uma luz de esperança, já que a criatura procede de Deus, e afinal de contas, em cada ente, em cada pessoa encontramos luz e glória, faz-nos ver que o mundo afinal não está perdido, porque procede de Deus e por Ele foi redimido. Penso que esta dualidade, esta “psicose maníaco-depressiva” é de uma extrema importância, e seria muito fecundo explorarmos estes aspectos na filosofia de Santo Tomás.



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