A
atualidade de Santo Tomás de Aquino
Entrevista com Professor Jean
Lauand Jean Lauand é
professor na Faculdade de Educação da Universidade de
São Paulo (FEUSP), e autor do recém-lançado "Sete
Conferências sobre Tomás de Aquino" (livro editado
pela Escola Superior de Direito Constitucional). Especialista no pensamento
de Santo Tomás, nesta conversa o Professor Lauand nos fala
de sua paixão pelo Doutro Angélico e sobre a atualidade
deste grande pensador.
Professor Jean, como surge o seu interesse
por Santo Tomás?
Foi uma conjunção de diversos fatores...
eu ainda muito jovem, com dezoito ou dezenove anos, tomei contato
com a obra do grande pensador alemão, que a meu ver é
o melhor intérprete de Santo Tomás no século
XX, o filósofo Josef Pieper, da Universidade de Münster;
sua obra começava a ser traduzida no Brasil e eu, ainda muito
jovem, li seu livro “O que é filosofar? O que é
acadêmico”, publicado pela Editora Herder. Imediatamente
senti uma grande afinidade com as teses de Santo Tomás, fielmente
apresentadas por Pieper. Ao mesmo tempo iniciava a licenciatura
em Matemática, na Universidade de São Paulo (USP);
na licenciatura, tive contato com a Faculdade de Educação,
porque a licenciatura exige que se cursem disciplinas da Educação,
onde acabei conhecendo o grande medievalista Prof. Ruy Afonso da
Costa Nunes. Surgiu entre nós uma grande amizade, e ele foi
me orientando neste meu interesse de jovem por Santo Tomás.
Poucos anos depois, quando eu estava fazendo pós-graduação
em Matemática, também na USP, surgiu o convite de
Ruy Nunes a que eu prestasse exame para o Mestrado em Filosofia.
Então, eu abandonei meus projetos em Álgebra Linear
e passei a estudar tematicamente Santo Tomás como objeto
de meus estudos de pós-graduação. Meu Doutorado
foi sobre Pieper, depois a livre-docência sobre Santo Tomás
e a prova de erudição no concurso para titular também
foi sobre Santo Tomás – a aula Deus Ludens, que está
no meu livro “Sete Conferências sobre Santo Tomás
de Aquino”.
O que mais o atrai na obra de Santo Tomás
de Aquino?
O que mais me atrai na obra de Santo Tomás
é a característica de abertura para a totalidade do
real. Santo Tomás tem uma coragem, uma alegria em conhecer
o mundo como Criação de Deus... é de Chesterton
o epíteto: “Tomás do Deus Criador”, ou
seja, a recusa a qualquer proposta de cristianismo amedrontada,
temerosa, recortada... Tomás aceita o mundo em sua plenitude,
com toda a realidade (visibilium omnium et invisibilia) e tem este
enorme bom senso em reconhecer as limitações da inteligência
humana, com a noção de mistério. Esta é
uma idéia fascinante em Santo Tomás: as coisas são
cognoscíveis porque são criadas pelo Verbo, e são
mistério também porque criadas pelo Verbo; nós
nunca poderemos sequer esgotar a essência de uma mosca, como
escreveu Tomás no “Comentário ao Credo”.
Então, me atrai esta atitude de “aventura intelectual”,
de conhecer a totalidade do real, com uma infinita abertura, que
contradiz, inclusive, os epígonos de Santo Tomás.
Pieper é da tese, com a qual concordo plenamente, de que
é impossível um tomismo no sentido de um “ismo”
que enclausurasse Santo Tomás numa “camisa-de-força”
de um sistema acabado - como se pode ter um sistema acabado, se
não podemos conhecer sequer a essência de uma mosca?
O que mais importa em Santo Tomás é exatamente este
espírito de confiança na realidade e de abertura infinita
para a busca do ser.
No
mundo e na universidade atuais, qual seria a contribuição
do pensamento de Santo Tomás?
Santo Tomás tem uma imensa atualidade até
pelo fato de ainda ser desconhecido. Certa vez, brincando, eu disse
que Santo Tomás não sai de moda porque nunca entrou
na moda. Mas, a atualidade não é só aquilo
que está acontecendo agora; é também aquilo
que deveria estar acontecendo, que poderia nos ajudar, e não
está acontecendo. Não há campo do pensamento
no qual Santo Tomás não tenha uma contribuição
original, e plenamente atual. A grande mensagem de Santo Tomás,
sua grande contribuição, parece ser por um lado, no
campo do conhecimento, esta afirmação do ser que não
tem nada a ver com racionalismos, com pretensões de esgotar
a realidade, como dizia na resposta anterior, mas de afirmar a “realidade
do real”. Isto é importantíssimo num mundo como
o de hoje, onde esta noção praticamente desapareceu.
Também, por extensão, no campo da Ética: Santo
Tomás afirma uma Ética do ser, da prudentia (no sentido
clássico de guiar-se pelo real) em contraposição
a uma Ética centrada em regrinhas. Uma Ética da autêntica
auto-realização do ser humano, de acordo com o plano
que Deus tem na criação pessoal de cada um. Esta noção
de pessoa, também; a pessoa “este homem, com esta carne
e estes ossos” também ocupa um papel essencial na obra
dele. Tudo isto é bastante ignorado por certos setores, certos
epígonos, que se pretendem tomistas e querem aprisionar Santo
Tomás em um sistema fechado de pensamento, o que é
o mais oposto ao espírito do próprio Tomás.
Quais as perspectivas para a filosofia
tomista?
Dentro deste enorme interesse potencial que Santo
Tomás tem pelo mundo atual, a grande perspectiva é
a da redescoberta da própria obra de Santo Tomás,
através de traduções e de ensino nas universidades,
de Santo Tomás com esta abertura à totalidade do real,
abrindo-se para a verdade, venha ela de onde vier (ele foi o primeiro
a conjugar, junto com Alberto Magno, o “impossível”
da harmonização da fé cristã com Aristóteles,
em sua época) e irmos redescobrindo o imenso otimismo que
decorre da Criação. Penso que Santo Tomás é
muito atual, porque ele ao mesmo tempo que afirma ser a criatura
encantadora porque procede de Deus, afirma também que a criatura
produz um forte efeito depressivo porque procede do nada. É
isto o que Pieper chama de “transtorno bipolar” ou “psicose
maníaco-depressiva” (risos)... a normalidade do homem
comum, que se põe em contato com o ser, que se põe
a filosofar, sofre um efeito muito pertubador: por um lado, uma
euforia extrema, porque encontra a beleza e a verdade de Deus no
mundo, e por outro, de uma profunda depressão – é
neste sentido que Santo Tomás entende o “bem aventurados
os que choram”. O dom da Ciência, para Santo Tomás,
que vem do Espírito Santo, é exatamente perceber o
nada deste mundo que, ao mesmo tempo, participa do ser de Deus.
Isto é bastante atual: esta consciência existencial
do nosso nada, ao mesmo tempo com uma luz de esperança, já
que a criatura procede de Deus, e afinal de contas, em cada ente,
em cada pessoa encontramos luz e glória, faz-nos ver que
o mundo afinal não está perdido, porque procede de
Deus e por Ele foi redimido. Penso que esta dualidade, esta “psicose
maníaco-depressiva” é de uma extrema importância,
e seria muito fecundo explorarmos estes aspectos na filosofia de
Santo Tomás.
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