Dom José Maria Pires*

Entrevista: Vaticanos II 

1. EDT – O Concílio do Vaticano II (1962-1965) foi o principal dinamizador da renovação da Igreja. Com sua experiência destes últimos 40 anos, o sr. acha que as mudanças conciliares foram suficientes para o “aggiornamento” sonhado por João XXIII? 

                           

D. José  Maria Pires: Da parte do Concílio foi. Só que aconteceu aquilo que o Frei Carlos Josaphat colocou na sua obra Moral, amor e humor, que foi o fato de que a Cúria Romana ir fechando as aberturas do Concílio. Se o Concílio tivesse sido vivido e aquelas intuições tivessem sido ampliadas, certamente a situação seria outra. Mas como nós não temos continuado a viver tudo aquilo que o Concílio nos propôs, então realmente ele, em muitos aspectos, não resolveu o problema que a Igreja tinha necessidade.  
                           

                           

2. EDT – Vários teólogos dizem que hoje, a partir da hierarquia católica, há um retrocesso da Igreja em relação ao Concílio do Vaticano II. Pessoalmente, e para o conjunto dos bispos do Brasil, o que significou o concílio? Numa visão realista, ainda existem bispos que representam efetivamente e, sem reticências, incrementam a teologia e a pastoral do Concílio? 

D. José  Maria Pires: Eu acredito que para o episcopado brasileiro o Concílio foi uma verdadeira reciclagem. Nós tivemos a sorte de ficar em número muito grande hospedado na mesma casa, a Domus Mariae. Nós podemos não só estar juntos, como também ter outros encontros. Toda tarde, depois da cessão do Concílio, geralmente nós tínhamos um encontro com um teólogo católico, ou então ortodoxo, teólogos protestantes... Agente tinha então uma visão ampla de toda situação. E para o episcopado, o Concílio foi profundamente marcante, tanto que depois do Vaticano II, a Igreja do Brasil se renovou. Não é mais aquela Igreja de antigamente, os princípios são os mesmos, mas as práticas, portanto, se modificaram completamente, principalmente no que diz respeito a opção preferencial pelos pobres. Não se pode dizer que foi 100%, mas no conjunto, houve uma mudança muito grande. Você veja que muitos bispos deixaram os palácios episcopais e foram morar em casas modestas, não chegaram a aquele ponto de Dom Helder, que foi morar na sacristia de uma igreja, mas deixaram os palácios, e estes foram colocados à disposição dos diversos serviços pastorais: Direitos Humanos, Cáritas e outras coisas assim. Depois a maneira de a gente tratar o povo, a começar pelo clero. Não é mais aquele bispo que manda, mas aquele bispo que procura ser irmão, procura estar ajudando, caminhando com o conselho de presbíteros, conselho pastoral, são instrumentos que ajudaram a modificar completamente a estrutura eclesial. Claro que hoje, depois de tantos anos e depois de tantos bispos que não viveram o Concílio, agente tem quase que, às vezes, uma sensação de um certo retrocesso, mas se formos comparar a Igreja de hoje, a hierarquia brasileira de hoje com a que era naquele tempo, agente vai ver que houve um progresso realmente muito grande.

As pessoas são as pessoas, naquele tempo havia muitos bispos que eram verdadeiros (....) vivendo num contexto diferente, mas hoje, realmente agente vê que a Igreja, neste ponto, progrediu muito. Isto é, a Igreja foi se tornando menos clerical e mais aberta ao laicato.  

3. EDT – O sr. foi bispo de Araçuaí-MG e arcebispo de João Pessoa-PA. O sr. participou integralmente do Concílio do Vaticano II como Padre Conciliar. O que mudou nestas dioceses depois do concílio? 

D. José  Maria Pires: Quando terminou o Concílio eu estava transferido de Araçuaí-MG, para a Paraíba. Entrando na Paraíba eu vi que lá ainda se vivia quase no Antigo Testamento, por exemplo, o clero estava dividido em dois grupos, e um lutando contra o outro, até mesmo nos jornais. Eram discordâncias teóricas e algumas no que diz respeito à Teologia Moral, Teologia Pastoral etc... Na medida em que agente ia se reunindo e procurando viver o Concílio, modificando, um pouco, também as instituições, por exemplo, não havia o Conselho de Presbíteros, agora são os próprios padres que escolhem os que vão constituir aquele Conselho; o Vigário Geral, ao invés de eu escolher, os padres indicavam três nomes e eu sempre escolhi o mais votado, por seus colegas. Então, na medida em que foi havendo maior participação do clero e dos leigos, então realmente, graças ao Concílio, a Igreja foi se modificando. Com toda certeza a Igreja da Paraíba hoje não é a mesma Igreja de quarenta anos atrás, porque o Concílio veio trazendo essas modificações. Agente não pode dizer que chegou a ser 1005, mas veio trazendo modificações que permitem ver que o quadro hoje é diferente e diferente para melhor.       

4. EDT –  Pastoralmente, o Concílio foi precipitado ou foi profético?  

D. José  Maria Pires: O Concílio não teve precipitação nenhuma. O Concílio abriu uma linha de profetismo na Igreja e mostrou que este é o caminho. A Igreja tem que ser sempre profética. A Igreja diante de situações de conflitos, de injustiça deve mostrar seu profetismo. Ela pode até ficar sozinha, pode ir à contramão do mundo, mas ela precisa seguir lutando por um mundo que seja cada vez mais aquele mundo que Deus quer. Isto é, um mundo melhor, mundo melhor que é sempre possível, portanto, agente deve acreditar nessa utopia que ainda não existe, mas por ser utopia ela pode vir a existir no futuro, então, lutar para que ela se realize. Uma Igreja que não é estática, mas uma Igreja Povo de Deus sempre em movimento em direção a Jesus Cristo. É o Cristo quem vai à frente, a Igreja busca corresponder a todas aquelas normas e orientações contidas na Palavra Deus, no Evangelho de Jesus Cristo.  

5. EDT - Como é que se percebe a hora em que a Igreja deve mudar? O sr. acha que há algo a ser mudado na Igreja atual? O quê? 

D. José  Maria Pires: Claro que sim, a Igreja está no mundo. Antes do Concílio se falava de duas realidades, Igreja e Mundo, como se fossem duas realidades perfeitas e cada uma seguindo seu caminho. O Concílio mudou completamente isso ao elaborar um documento intitulado A Igreja no Mundo. A Igreja não está ao lado do mundo, a Igreja está no mundo e não pode ser indiferente a ele. Ela tem que lutar para que esse mundo vá melhorando cada vez mais. Aqui não se trata de aliança Igreja-mundo, mas que a Igreja trabalhe para que as estruturas estejam a serviço e não contra a humanidade, que ela mostre que tudo o que existe, pela vontade de Deus, deve ser posto a serviço do ser humano, não para explorá-lo. Agindo assim a Igreja se faz profética. No entanto, a Igreja deve constantemente se policiar para não cair na acomodação.

Dentro da Igreja, a Vida Religiosa é chamada a ser sinal escatológico, de esperança, de uma realidade ainda não presente, mas que com o seu labor essa vai se tornando mais palpável. A V.R. está aí para mostrar aquilo que deveria ser o mundo e não para se acomodar com o que ainda não o é, eis seu profetismo.  

6. EDT – A Igreja do Brasil valoriza realmente em todos os níveis o trabalho dos leigos e das leigas? Não há ainda muita retórica em torno da valorização do laicato? Pe. Comblin, que conhece profundamente a realidade brasileira, diz que está havendo um retorno ao clericalismo. Os atuais seminaristas estão sendo preparados para uma Igreja que ama a todos, mas preferencialmente os pobres, e que prega com credibilidade a libertação evangélica? 

D. José  Maria Pires: Penso que não podemos generalizar. Mas no conjunto a Igreja tem muito a caminhar para que venha a se tornar cada vez mais popular e menos clerical. A Igreja deve ir à direção do Povo de Deus, por que a mesma, no Vat. II, se definiu como  sendo Povo de Deus. No início, se pensava que o Concílio iria tratar apenas da sagrada hierarquia. No entanto, a principal constituição dogmática, a Lumen Gentium, coloca a hierarquia depois do conceito de Igreja, e está sendo, em Cristo, o sinal e o instrumento da união dos homens e das mulheres entre si, e da união de todo gênero humano, então mostra a Igreja como sendo comunhão e não como hierarquia.

A hierarquia vai aparecer lá no capitulo terceiro, isso para mostrar qual deve ser o seu papel, ou seja, o de estar a serviço de todo o Povo de Deus, do qual a mesma faz parte. Não mais a imagem piramidal de Igreja e sim circular, onde no centro fica o Cristo. O esforço é que toda humanidade vá tomando a direção de Jesus, incluindo papa, bispos, padres, religiosas e religiosos, cada um com sua missão específica neste corpo vivo que é a Igreja, corpo místico de Cristo, cuja cabeça é o próprio Cristo e não o Papa. Eis a missão da hierarquia, ajudar o Povo de Deus a caminhar na direção daquele que guia a Igreja.     

7. EDT – O sr. é um observador privilegiado das relações Igreja-Estado no Brasil dos últimos 50 anos. A Igreja pode testemunhar o Evangelho anunciado aos pobres (Mt 11,5) com toda liberdade e credibilidade? Ou será que ainda existem cacoetes de subserviência da Igreja aos diversos matizes do poder político e religioso? 

D. José  Maria Pires: Sim, pode! Mas é claro que existem pressões de todos os lados para que a igreja “manere a barra”. Hoje vivemos uma época de hedonismo, materialismo, o que se deseja é dinheiro, bons carros, conforto etc... Este não pode ser o caminho da Igreja por que nós ainda estamos numa época de peregrinação, nós somos peregrinos, não chegamos na pátria, então não podemos nos conformar com este mundo, ou tomar sua forma. Devemos ter claro que neste mundo precisamos de conforto para poder caminhar melhor; precisamos dispor dos instrumentos necessários para servir melhor, no entanto estes não devem ser o fim último de nosso existir, eles são meios e instrumento para a missão. Não se pode ignorar os avanços da tecnologia, que cada vez mais nos impulsiona para um maior contato com o outro, para ajudá-los a crescerem, a se sentirem melhores. Mas ao mesmo tempo, estar atento à sua tentação de facilitar a criação de relações desumanas, meramente virtuais e da formação de guetos.

Há muito a ser feito para superar o hedonismo e o materialismo, até mesmo pelo fato de, muitas vezes, cairmos na tentação de entrar neste circulo vicioso. Aqui nos vem o Evangelho em nosso auxílio para nos lembrar que o caminho de Jesus é o caminho da Cruz, e este é também o caminho do seguidor de Jesus. Esta espiritualidade exige de nós moderação e nos obriga a pensar no outro. Não é fácil se manter neste caminho, está aí o motivo que faz com que a Igreja um pouco, de vez em quando, vai silenciando aquilo que ela deveria denunciar. É necessário que haja profetas que lembre e relembre a Igreja que ela não deve tomar a forma deste mundo, que ela deve olhar para frente, pois lá está seu guia, o próprio Cristo que nos deu o exemplo e morreu na cruz.   

8. EDT – Há 35 anos (10/8/1974) morria, na França, Frei Tito de Alencar Lima, OP. Como o sr., cidadão brasileiro e sucessor dos Apóstolos, avalia esta página da história da Igreja do Brasil? 

D. José  Maria Pires: Não foi a história da Igreja, foi à história do Brasil. Ficamos sujeitos a um período de repressão em que ninguém tinha liberdade. Por isso, a Igreja teve um papel tão relevante que foi o de enfrentar a ditadura, não com armas, mas com palavras e ações. Houve muitas pessoas que morreram por causa disso. Dentro da própria Igreja houve quem denunciasse isso às autoridades, inclusive a CNBB convocou o ministro da justiça para que ele fosse argüido diante da assembléia por causa das prisões injustas e pelas torturas. Foi uma Igreja que tomou posições naquela realidade. Quantos bispos acolheram, em suas casas, pessoas que estavam sendo procuradas pela polícia, quantos criaram condições para que eles saíssem do país e para salvarem a própria vida.

Naquele período, a Igreja parece que cumpriu a sua missão. Realizou aquilo que devia ser realizado. Agora, claro que os tempos vão mudando e somos convidados a nos perguntar quais são os desafios de hoje, e quais os principais desafios para os direitos humanos hoje. Paulo VI, durante o Vat. II, em visita a ONU proferiu uma frase que afirmava que a Igreja não era perita em política, nem em economia, mas sim em humanidades. Aquilo que diz respeito à pessoa humana, nisto a Igreja é perita, e tem a obrigação de procurar defender os direitos humanos em qualquer situação, sem olhar religião, partidos políticos, ou qualquer outra situação. Ela é perita em Direitos Humanos, porque seu fundador, sendo Deus, se humanizou, se fez homem, então o homem para a Igreja é de maior importância, seu fundador, sendo Deus, fez-se gente como nós e por isso é que precisa valorizar tudo o que é humano. Neste sentido a Igreja tem um longo caminho a percorrer, acho que ela já deu passos no passado, esses passos continuam, mas ainda falta um longo espaço e muitos novos desafios vão surgindo e eles devem ser enfrentados sempre nessa direção, de sermos peritos em humanidade, em humanismo, aqui podemos falar com autoridade. Os direitos humanos devem ser a prioridade das prioridades, independente da situação ou lugar, eles devem ser respeitados.

* Arcebispo emérito da Arquidiocese da Paraíba.   

 

 

 

 

 

 

 

 

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