Escola Dominicana de Teologia - EDT

 

 

Henri Matisse e a capela de Vence

A “obra prima de toda minha vida”, dizia Matisse, ao falar da capela de Vence, que absorveu grande parte de sua energia durante quatro anos inteiros, de dezembro de 1947 a junho de 1951. “Aqueles que tiveram a honra e a alegria de se aproximarem de Matisse durante estes quatro anos, nos quais, dia e noite, esta capela era edificada – mas o foi antes nele mesmo, no segredo de sua alma – sabem como, a cada mês, a cada semana, vários projetos foram se sucedendo, um após outro, passando por um constante processo de simplificação”, escreveu frei Couturier em seu diário. E é ele ainda quem nos relata a seguinte reflexão de Matisse, quando voltou muito impressionado de uma visita à Catedral Notre Dame, de Paris: “Quando saí, disse a mim mesmo: Oh! Diante de tudo isto, o que é a capela? (...) Não é mais que uma flor. Mas, é uma flor”.

A capela de Vence nasceu da profunda amizade que ligava Matisse a uma religiosa dominicana, a Irmã Jacques-Marie. Matisse a conheceu em Nice, onde ela foi sua enfermeira, antes de se tornar freira (da congregação do Rosário de Monteils). Ela cuidou dele durante sua grave e longa doença, de 1942 a 1943. Ao longo das intermináveis noites de insônia do pintor, uma forte ligação se estabelece entre eles. No final do ano de 1946, Ir. Jacques-Marie fala a seu amigo de uma capela que as dominicanas querem construir, no lugar de um galpão. Ela começa solicitando seus conselhos e lhe submete um projeto de vitral. Matisse, que então estava com 77 anos, começa dando-lhe algumas indicações e, em seguida, progressivamente, se vai lançando nesse jogo, até considerar a possibilidade de ele mesmo fazer os vitrais e de conceber o edifício que os abrigará. Ele conta a si mesmo, maravilhado, escrevendo em uma de suas cadernetas de anotações, referindo-se a si na terceira pessoa, como que para acentuar a estranheza da aventura: “Oh! Eis que o velho Matisse, que vive quase o ano todo em Vence, colocou na cabeça, há seis meses, a princípio pela amizade por uma religiosa que lhe deu seus cuidados, depois por um interesse cada vez mais profundo que tomou pela coisa, pôs na cabeça fazer os vitrais, duas mesas de altar e a via sacra da capela que deverá ser construída para a Casa Lacordaire. Isto é completamente sensacional, quando se sabe quem é Matisse. Nós nunca poderíamos crer que este artista, cuja arte parece irremediavelmente fechada ao sobrenatural, se apaixonaria por tal tarefa”.


Com efeito, Matisse se apaixona. Porém, tropeça numa considerável dificuldade técnica: não é arquiteto, e precisa de ajuda. No final do outono de 1947, os dominicanos enviam-lhe um estudante, um jovem frade em convalescença na região, o frei Rayssiguier, o qual a superiora das irmãs sugere que se apresente a Matisse “como um arquiteto, conselheiro delas, desejoso de conversar com ele sobre a futura capela”. O frade não é arquiteto, mas se interessa muito pelas artes, como muitos dominicanos da época, seguindo o frei Couturier.


O frei Marie-Alain Couturier tinha cerca de cinquenta anos. Ele travava, há algum tempo, um combate que tinha como objetivo trazer a arte contemporânea para os edifícios religiosos, convencido de que “a boa pintura não se faz com bons princípios e boas idéias”, mas com o gênio dos mestres que ousaram se abrir ao desconhecido de seu mundo interior. Para obter uma renovação na arte sacra, pensa ele, é necessário dirigir-se não aos “especialistas” desta arte, mas aos grandes artistas da época, os únicos capazes de verdadeira criação, os únicos capazes de “juventude”, sem que a idade seja importante. “É esta a grande lição dos velhos mestres”, escrevera ele, anos antes.
Frei Couturier transbordava de projetos entusiasmados, como aquele de Sainte-Baume, com Le Corbusier. Frei Rayssiguier, que acabava de descobrir a obra de Matisse, também. Ele esboça o plano de uma capela e o submete a Matisse. O pintor se interessa bastante... a simplicidade do plano o seduz, as paredes da capela oferecem-lhe “o equivalente visual de um grande livro aberto”. Começam, então, os meses de trabalho apaixonado.


O pintor e o religioso descobrem, no entanto, depois de alguns meses, que suas concepções nem sempre são as mesmas. Rayssiguier está a ponto de se retirar do projeto quando, finalmente, as tensões são superadas por uma decisão comum, a de chamar um arquiteto profissional. O nome de Le Corbusier é recusado por Matisse, e é Auguste Perret que, em julho de 1948, aceita se encarregar do projeto. Mas, nem todos os problemas estavam resolvidos.


Através de sucessivas abordagens, Matisse se impregna da capela, que ele reconstruiu em seu apartamento-atelier, ali colocando sua cama. “Eu ainda vou dormir na igreja”, disse a frei Rayssiguier. Matisse procura, cada vez mais, fazer da igreja “um espaço espiritual”; a capela se desenvolve nele como uma planta, e a sua terceira versão dos vitrais, sobre o tema da “árvore da vida”, é o que permanecerá.


A doença força-o a várias interrupções e retomadas. As pesquisas para encontrar o suporte adequado para os desenhos também tomam bastante tempo, assim como as múltiplas versões da Virgem com o menino, de São Domingos e da via sacra. Como os vitrais, eles se depuram para se tornarem um tipo de caligrafia tênue, que abre espaço para o invisível, do qual Matisse parece pressentir a transcendência. “Agora eu posso compreender tudo o que faço, eu não sei o porquê... Deus me tomou pela mão”. Ao mesmo tempo, ele está consciente de que esta transformação vem do mais profundo de seu ser. É como uma oração que vai se repetindo cada vez melhor. “Eu nunca pude fazer as coisas que não sentisse em mim”.


Em julho de 1950, Matisse escreveu ao frei Couturier: “A capela, naquilo que depende de mim, está terminada, o que quer dizer que eu já posso morrer; fiz minha parte original e pessoal”. Ele vê a capela como “um ímpeto alegre e cheio de esperança para com a Virgem do Rosário”. No ano seguinte, os trabalhos foram concluídos, e a capela de Nossa Senhora do Rosário foi inaugurada no dia 25 de junho. Matisse, enfermo, não pode estar presente. Doravante, ele se sente “como viajante que fez sua mala e que espera o trem, sabendo que a hora não tardará”. A hora chega para ele no dia 3 de novembro de 1954.


Dois anos antes, frei Couturier escrevera a Matisse: “Recebo agora, todas as semanas, cartas de pessoas que voltam transtornadas de Vence. Não somente por causa da beleza da capela... estou certo que há pessoas que entram no paraíso pela porta que você lhes abriu”.

Fonte: http://www.spiritualite2000.com/page.php?idpage=1229 (Le livre des Merveilles Mame / Plonpp 1234 – 123)
Tradução : Frei André Tavares, OP
Revisão: Frei Louis Granot, OP

 

 

 

 

 

 

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